A maioria das religiões, sobretudo as cristãs, buscam compreender a natureza de Deus. Ao longo da história vários teólogos se debruçaram sobre este desafio, afim de uma aproximação, mesmo que mínima, desta pergunta instigante.
Não sou teólogo, nas como sujeito de fé também persigo uma resposta que me seja suficiente. Encontrei uma definição interessante, não entre os estudiosos da religião, mas com um poeta, o alemão Rainer Maria Rilke. Ele ofereceu uma pista para tratar desta nossa inquietação. Entre 1903 e 1908, Reiner escreveu inúmeras cartas endereçadas a um outro poeta chamado Franz Xavier Kappus. A reunião destas cartas resultou em seu livro mais conhecido, Cartas a um Jovem Poeta. Nele somos convidados a entrar em seu mundo interior, repleto de profundas reflexões. Numa das cartas, endereçadas ao amigo, por ocasião da celebração do Natal, Rilke propõe uma singela e potente reflexão sobre a solidão. À certa altura, visando contrapor a crise de fé do amigo que questionava a existência de Deus, Rilke sugere uma alegoria interessante. Indaga o poeta: e se Deus for “o derradeiro fruto de uma árvore cujas folhas somos todos nós?”
Vejam o profundo sentido desta alegoria: as folhas são órgãos vegetais indispensáveis para uma árvore. É através das folhas que uma árvore consegue absorver a luz solar e o gás carbônico para o processo de fotossíntese. Sem as folhas não há árvore, muito menos fruto. Ao propor, em sua parábola que Deus é o derradeiro fruto de uma árvore cujas folhas somos nós, Rilke coloca em nossas mãos a responsabilidade pelo advento de Deus e de seu Reino. Mais ainda: de nada adianta uma árvore ter apenas uma única folha, ou algumas poucas e selecionadas folhas. Para sua sustentação e para que ela dê frutos será necessário milhares, centenas de milhares de folhas. Assim, Rilke ainda ajuda-nos a compreender que a busca por uma sociedade igualitária, fraterna e amorosa, o que para nós cristãos denominamos Reino de Deus, não será tarefa de alguns poucos, ou de um grupo seleto, mas sim tarefa de todos.
Percebo que vivemos submersos numa espécie de preguiça política. Impregnados neste costume letárgico, lavamos os mãos diante do compromisso de construir uma civilização melhor. Costumeiramente transferimos responsabilidades. Sempre será o outro o responsável pela comunidade, pela sociedade, pela vida. Em termos de vivência de fé, a situação, nos parece semelhante: poucos são os que se dispõe a, de fato, trabalhar para a antecipação da civilização do amor, a maioria de nós devotamos nossas orações para que Deus venha logo e dê um jeito nesta bagunça.
Ocorre que, se estiver certo o poeta, haveremos de cuidar bem das folhas, sem as quais, o derradeiro fruto não virá.
Ronei Costa Martins Silva
Arquiteto e urbanista






