A MORFOLOGIA DO LUGAR DA ASSEMBLEIA E SUA
CORRELAÇÃO COM O SENTIDO DE CRISTO TOTAL

CONCLUSÃO

O rio não quer chegar,

mas ficar largo e profundo.

(Guimarães Rosa)[1]

Iniciando o fecho deste trabalho, proponho a leveza da poesia de Victor Hugo. No livro “Notre-Dame de Paris”, o autor descreve a relação entre a catedral e o adorável Quasímodo, eternizado pela alcunha de corcunda. Diz nosso poeta:

Para Quasímodo, a catedral fora sucessivamente o ovo, o ninho, a casa, a pátria, o universo. Quase se poderia dizer que ele havia tomado a forma dela, como o caracol toma a forma da concha. Era sua morada, sua toca, seu invólucro. Estava, por assim dizer, colado a ela como a tartaruga ao casco. A rugosa catedral era sua carapaça.[2]

Com esta analogia poderosa, Victor Hugo nos conduz para vislumbrarmos o poder que os lugares exercem sobre todos e cada um. Se não com esta intensidade, ao menos em certa medida, mesmo que reduzida, somos todos, uns mais outros menos, “Quasímodos” de alguma “catedral”.

O poder desta poesia traduz de forma inequívoca a pretensão da arquitetura, sobretudo da arquitetura do espaço litúrgico, mais ainda a pretensão daqueles que ousam pensar o lugar para o Corpo Místico de Cristo, a comunidade reunida. Da mesma maneira que no romance de Victor Hugo, Quasímodo tornou-se o que é graças à contribuição da relação fenomenológica dele com o espaço habitado, as nossas comunidades também tornar-se-ão organismos relacionais na medida em que o espaço litúrgico oferecer condições para tal. O lugar edificado para a reunião dos cristãos poderá, então, facilitar ou inibir a vivência relacional.

Francisco Figueiredo de Moraes, arquiteto com ampla experiência na edificação de espaços de oração, afirma que:

Uma obra de arquitetura não é apenas um espaço cujo significado se esgota no fato de abrigar as pessoas com suas atividades específicas. Não importa se com ou sem projeto ou com que intencionalidade alguém a produz, ela se torna algo autônomo, refletindo os que a construíram, os que a habitam ou a utilizam. Mas, também ao contrário, ela pode conformar, solidificar ou modificar hábitos e mundivivências. Se isto não puder ser válido para toda obra, o será obrigatoriamente par uma construção muito especifica: o edifício de culto.[3]

Moraes vai na mesma toada, discorrendo sobre o poder dos espaços edificados na construção das identidades culturais, tanto do indivíduo, quanto de uma comunidade.

É certo que a prática cotidiana molda valores e não o inverso. Os lugares e espaços podem promover ou inibir os exercícios cotidianos que, paulatinamente, vão dando forma às crenças e valores. Por isso a arquitetura é tão importante. Esta ciência nos permite conceber lugares que favoreçam a vivência de práticas que moldarão valores na comunidade e na sociedade.

Os arquitetos devem, com delicadeza, adentrar no cotidiano dos destinatários dos projetos, no caso específico, da comunidade. Conhecê-la, tal como um bom alfaiate que toma todas as medidas do “corpo” para coser a “roupa ideal”. O corpo vem antes da roupa. O corpo é essencial e a roupa, necessária. O arquiteto/alfaiate deve, então, conhecer, sentir e mensurar o corpo para que consiga conceber a roupa que será o abrigo para o Corpo Místico de Cristo: a Igreja.

Além disso, ainda de carona nesta analogia, pensemos que a roupa, além de ser de utilidade prática, protegendo do frio e do calor, traz consigo uma considerável carga simbólica, tanto é verdade que é possível apreender informações sobre as pessoas apenas olhando as escolhas que fazem para suas vestimentas. Ora, evidentemente esta condição é hiperpotencializada quando se fala “roupa” da Igreja, a casa de oração, na qual os símbolos são elementos fundamentais para a vivência da comunidade.

Entretanto, os arquitetos, artistas e pensadores das artes sacras correm o risco de se sentirem presunçosos e detentores dos saberes divinos com os quais edificariam a casa de oração ideal. Erro grande. A manifestação divina não está ao alcance de mãos humanas. Por isso é necessária uma postura humilde diante do Mistério. Por maior que seja o gênio humano, a grandeza de Deus não cabe nele.

Então, sem a pretensão de portarmos as respostas ideais para as questões aqui levantadas, este trabalho, a partir da pesquisa realizada, sugere caminhos possíveis para que possamos exercitar um tipo de produção do lugar litúrgico que seja mais adequado às teorias defendidas pelo Movimento Litúrgico e pelo Concílio Vaticano II.

Ao revisitamos a evolução histórica das assembleias cristãs, percebemos que a fonte da qual devemos haurir está nas primeiras comunidades, nos três primeiros séculos da nossa era. Após este período, os vários acontecimentos políticos no império romano, notadamente os dois Éditos já mencionados, que tornaram o cristianismo primeiro uma religião legal, depois uma religião oficial, provocaram um crescimento do número de cristãos para o qual as comunidades não estavam preparadas. Somando-se a isto, a utilização de edifícios públicos, oferecidos pelo império para acolher as comunidades cada vez mais inchadas, os lugares de encontro dos cristãos passaram a ser cada vez mais impessoais e menos acolhedores.

Estes acontecimentos foram alterando as práticas dos encontros cristãos. Se antes, todos se reuniam em torno de uma ou várias mesas, faziam memória dos feitos de Jesus e depois partilhavam a comida que traziam, após esta inflexão histórica, estes encontros passaram a ser mais formais e menos amistosos.

Ao longo de toda a Idade Média, até meados do século XIX, esta situação só se agravara, distanciando cada vez mais o povo da Mesa do Banquete. A oxigenação necessária somente surge com o advento do Movimento Litúrgico e seu desfecho no Concílio Vaticano II, que buscou o resgate dos princípios cristãos até então abandonados.

Se, hoje, há uma diferença entre o “católico de missa” e o “membro da comunidade cristã”, sendo que um só é encontrado nas celebrações enquanto o outro se dedica para o bom andamento da comunidade, as primeiras comunidades cristãs, como pudemos ver, possuíam princípios de partilha e de vivência em comum e não havia diferença entre comunidade cristã e assembleia litúrgica. Ambas eram sinônimos. Se transportarmos este conceito para a atualidade, seria como se pudéssemos afirmar que não é possível ser “católico de missa”, a única via possível para a vivência cristã é a vivência em comunidade.

A respeito disto é bastante claro o apóstolo Paulo. Na maioria de suas cartas, apela para que todos vivam em comunidade, sem a qual não haverá salvação. Mais ainda, afirma que o sofrimento de um membro da comunidade deve ser sentido por todos, bem como a alegria de um membro será a alegria de todos, tal como acontece com um corpo físico, assim deverá acontecer com a comunidade, o Corpo Místico de Cristo.

Mas a vivência em comunidade também possui tensões, que são refletidas na concepção do lugar. Uma delas se refere à relação entre o corpo clerical e o corpo laical. Clero e leigos foram separados como entes distintos, não pertencentes ao mesmo corpo, sendo que a estes era destinada a contemplação e o gesto passivo de apenas assistir à missa, enquanto que para aqueles cabia a exclusividade dos serviços sagrados. Estas tensões, percebidas ao longo da história e bem registradas por Pierre Bourdieu, obviamente estiveram no bojo das concepções arquitetônicas das casas da Igreja por um longo período, e, certamente, ainda influenciam as construções contemporâneas, apesar dos bons ventos do Concílio.

Bons ventos que recuperaram o sentido da assembleia litúrgica como sujeito integral da celebração, em uma eficiente tentativa em se recuperar o sentido de Corpo, minimizando as tensões simbólicas, aproximando e relacionando, em pé de igualdade fraterna, o clero e o corpo laical. A partir de então, nada de passividade. A assembleia passa a ser considerada ente primeiro do acontecimento Pascal. Se antes se considerava apenas um celebrante, o padre, após a reanimação do Concílio, todos somos celebrantes. A liturgia passa a ser, então, tarefa de toda a comunidade.

Para tanto, para que este conceito recuperado dos primórdios seja bem vivido, será necessário ambientes coerentes. Não se pode mais concordar com lugares para a assembleia que apenas permitam ao povo “assistir” à missa, pois esta passividade deverá ser definitivamente eliminada. Casas da Igreja que mais se assemelham a salas de espetáculos, cinemas ou salas de conferências e palestras não devem mais servir aos intuitos da liturgia, pois não deve haver mais quem assiste àquele que faz. Todos fazem, todos são protagonistas. Este sentido de participação, somente será possível se o lugar da assembleia passar por uma radical transformação, eliminando todos os vestígios da Idade Média e recuperando a herança da cristandade primitiva.

O desafio então será qualificar o lugar da assembleia, tornando-o um ambiente afetivo, dotado de valor antropológico, no qual as pessoas possam interagir umas com as outras, diferentemente do que se observava nos templos medievais, e na maioria das igrejas atuais, nas quais a interação é desestimulada e a impessoalidade e o individualismo potencializados.

Os estudos desta monografia, baseados nas pesquisas bibliográficas, apontam para um caminho possível. A combinação entre a axialidade do corredor central, que simboliza a tensão escatológica do espaço litúrgico e a centralidade do Mistério Pascal, sinalizado pelo altar, ao redor do qual devamos estar todos nós.

Este caminho possível encontrará diversas vertentes e intepretações, podendo ser fonte de inspiração para projetos vindouros e também marco a partir do qual estas teorias possam ser aperfeiçoadas, sempre em busca de um lugar para a assembleia que possa ser sinal do Corpo Místico de Cristo, a Igreja.

Enfim, o que se buscou aqui neste estudo foi um convite à reflexão acerca da coerência entre o sentido de Corpo Total (Corpo Místico de Cristo) e o lugar que este corpo, chamado igreja, utiliza para se encontrar. Quisemos direcionar os olhares para a concepção morfológica do aludido lugar do encontro e desafiarmo-nos a considerar as seguintes perguntas retóricas: os atuais lugares da assembleia litúrgica são capazes de promover a percepção de Corpo por parte de cada um de seus membros? Os atuais lugares são capazes de estimular o encontro relacional, caminho mais eficiente para se fortalecer os vínculos afetivos, como cimento que une as partes num todo indivisível?

Em nossa opinião, os lugares da assembleia, com raras exceções, estão aquém destes anseios desejados, sendo necessário trilharmos um caminho de formação, reflexão e produção do lugar litúrgico que possa atender aos princípios sob os quais as comunidades cristãs estão fundamentadas.

Este é o desafio.


[1] ROSA, Guimarães. Pensador. Disponível em: <https://www.pensador.com/frase/Mjk5MzUz/> Acesso em: fev. 2020.

[2] HUGO, Victor. O Corcunda de Notre Dame, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013, p. 223.

[3] MORAES, Francisco Filgueira de. O espaço de culto à imagem da Igreja, p. 25.

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