O Rosto de Cristo

O rosto mais conhecido no mundo é o rosto de Cristo. Independentemente do que possamos pensar ou crer, há pelo menos vinte séculos Jesus é figura dominante na cultura ocidental. Qualquer um de nós seria capaz de identificá-lo ao ver uma imagem sua.  Entretanto, que rosto é este que, quase que involuntariamente, associamos à Cristo? 

Hoje sabemos que seria quase impossível Jesus ter características étnicas europeias, tendo nascido na Palestina do século I. Mais provável seria ele possuir características étnicas vinculadas à região onde viveu.

Sabemos também que naquela época não havia interesse em reproduzir a vida pessoal de grandes líderes. Os artistas e escritores deste período histórico priorizavam o que as personalidades representavam, em detrimento da descrição de suas vidas particulares e características peculiares. Focavam na atuação pública e menos na vida privada. Talvez por isso, não tenha havido interesse em se retratar o rosto de Jesus, naquela época.

Em regra geral, só podemos falar em retratos a partir do século XIV, com uma ligeira exceção para as máscaras funerárias de Fayum, datadas do século IV.

O fato é que na medida em que o cristianismo foi sendo consolidado surgiu a necessidade de se traduzir o rosto de Cristo em imagens, a fim de facilitar o exercício da devoção. E, ao que parece, tal arte baseou-se no princípio da inculturação. A despeito do Jesus histórico ter características de um judeu do século I, se o Cristo da fé fosse retratado numa terra longínqua, seus traços étnicos fariam referência à região onde residiam os crentes, ignorando o estereótipo original. Admitamos que foi um recurso muito interessante para aproximar a divindade do povo orante. Quem via em Cristo seus próprios traços fisiológicos se sentia irmanado em sua glória: aquela pessoa que contempla também é partícula do Sagrado, revelava a imagem.

Dado o fato de que o cristianismo se consolidou na Eurásia, e que estes povos conquistaram, desalojaram e dizimaram outros povos nativos nas Américas, Austrália e África, é possível compreender a razão de Sua imagem predominante em nossa cultura ocidental ser a de um homem branco, loiro e de olhos azuis. O inaceitável, entretanto, é quando esta imagem étnica exclui todas as demais etnias. O princípio da inculturação do Sagrado, deveria valer para todos os povos. Se uma mulher negra olhar para um Deus de semblante europeu, ela terá dificuldade em se sentir incluída naquele plano de Salvação, sobretudo se aquela característica étnica trouxer à tona certa repulsa histórica.

É por isso que o rosto de Cristo deve ser supra-étnico, acolhendo n’Ele todas as etnias. Para tanto, devemos nos desapegar da representação realística e naturalista, pois esta, ao escolher representar um traço étnico específico, excluirá todas as demais etnias, algo que é contraditório para o próprio cristianismo. O rosto de Cristo deve ser simbólico, tal como um ícone. Seu semblante dever acolher todas as culturas, revelando n’Ele algo de invisível, que não se vê imediatamente, que não se dá num primeiro olhar, mas que nos convida a adentrar na mistagogia cristã e contemplar o que se quer revelar.

Os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) não reconheceram Cristo Ressuscitado, apesar de terem caminhado com Ele o dia todo. Talvez não o reconheceram porque procuraram n’Ele características físicas e étnicas específicas.

Ronei Costa Martins Silva

arquiteto urbanista, especialista em arte sacra e espaço litúrgico

Ícone de Cristo no início do artigo é de autoria do artista Antônio Batista (instagran: @arte.sacra.a.batista/)

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