A Função Social do Palhaço

A impossibilidade da alma em se adequar à realidade dura e cruel imposta por uma sociedade injusta e desumana fez brotar, como frágil semente geminada, a dimensão do palhaço.

Sua função social vai além do bem estar causado pelo riso. Quando vamos ao circo, ou quando vemos artistas que se dispõe a revelar a dimensão humana do ridículo, reagimos com o riso, expressão que ativa nossas defesas imunológicas, libera endorfinas (hormônios que produzem sensação de bem-estar), melhora a circulação sanguínea, evitando problemas de pressão, etc. Assim, a possibilidade de uma boa gargalhada é por si só extremamente benéfica.

No entanto e a despeito do riso por si só, o palhaço cumpre função social importante quando traz à pauta, de uma forma bastante agradável, a máxima da qual ninguém consegue fugir: Somos feios! Numa sociedade que supervaloriza a beleza, somos feios! Somos ingênuos, bobos, grotescos, etc. O palhaço desvela a dimensão humana da qual todos, por imposição social, somos obrigados ocultar. E mais, brinca com ela, diverte-se e dá nova conotação àquilo que, aos olhos do capitalista, aparentemente não presta.

A filosofia oriental ensinou que somos yn e yang, claro e escuro, virtudes e defeitos. Pois bem, o palhaço ousa brincar com estas porções numa sociedade que não aceita o ser humano por completo. A ordem é: Seja bonito, por que não há lugar para feios. E assim se movimenta a industria milionária dos cosméticos. Então chagamos ao âmago do que é ser palhaço: Simplesmente um ser que aceita viver intensamente o seu lado ridículo, a ponto de dilatá-lo, ampliá-lo, afim de realizar a sua arte. E através desta arte colocar o ser humano em contato com ele próprio à medida que o faz rir de si mesmo. Exatamente, quando rimos do palhaço estamos rindo de nós mesmos, uma vez que a dimensão do ridículo externada pelo palhaço, é, certamente, algo que todos carregamos de forma velada dentro de nós. Noutras palavras, se somos virtudes e defeitos, certamente temos escondido um palhaço que quer brincar, mas que é impedido de sair por uma sociedade que considera somente as virtudes. Talvez por isso este sujeito cômico exerça tanto fascínio.

O palhaço, sendo fruto das contradições da sociedade, denuncia a ordem capitalista vigente que exige a superação do homem pelo homem, que se baseia na “seleção natural” de Darwin, para explicar a exclusão social. Atuando em dupla (Branco e Augusto), suas mascaras cômicas são a solidificação da sociedade de classes. Um seria a voz da ordem e o outro o marginal, aquele que não se encaixa nos padrões. Assim os palhaços sempre falam da mesma coisa, eles falam da fome: fome de comida, fome de sexo, fome de dignidade, fome de poder. Este tipo cômico denuncia a ordem quando sai às ruas com uma roupa que foge às regras modistas, quando finalmente descobre uma utilidade para a gravata ao limpar o seu próprio nariz. É o palhaço e sua arte a serviço da transformação social

E como diria Oswaldo Montenegro: “…Que a arte nos mostre um caminho, mesmo que ela mesma não saiba. E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer, porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção…”

Ronei Costa Martins Silva

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