O pote de goiabada

Naqueles meses não faltaria arroz no prato. Morávamos às margens de uma rodovia perigosa, bem perto de uma curva providencial que sempre nos socorria. Não raro, bem naqueles dias de prato vazio, um caminhão tombava na curva. O estrondo provocava em nós a mesmíssima reação que o som da sirene provoca no quartel do corpo de bombeiros. A única diferença é que estes salvam os outros e nós corríamos atrás da nossa própria salvação, que estava, àquele instante, espalhada pelo acostamento da estrada.

Naquele fim de tarde o som dos pios das andorinhas recolhidas nas copas das árvores, negociando um melhor galho para pernoitar, fora interrompido por um estrondo familiar, bem conhecido: um caminhão tombara na curva da estrada. Imediatamente o pai, a mãe e meu irmão mais velho corriam ao encontro da esperança. Eu ficava em casa, cuidando do meu outro irmão caçula, enquanto desejava coisas minhas: sonhava com o dia em que o pai, a mãe e meu irmão, retornando da colheita, trouxessem nos braços dezenas, centenas de potes de goiabada. Nunca tombara um caminhão de goiabada, unzinho sequer, nunca, aliás, nem sempre era comida. Muitas vezes, todos corriam para a beira da estrada e lá avistavam um caminhão tombado esparramando pela estrada uma montanha de areia ou de pedra, ou qualquer outra coisa que não servia para comer. Nestes casos, todos voltavam para a casa de mãos e barrigas vazias. Também não agradava quando tombava caminhão de coisas perecíveis. Certa vez os três voltaram para casa com muitas caixas de tomate. Naquela semana comemos tanto, mas tanto tomate que ficamos empanturrados e até hoje, décadas depois, ainda me lembro deles com certo desgosto.

Coisa boa mesmo, dizia minha mãe, era o feijão, que durava muito tempo e com farinha combinava bem. Mas naquele entardecer, não era areia, nem tomate, muito menos feijão. Era um caminhão de pacotes de arroz, centenas deles espalhados pelo acostamento, perto do caminhão emborcado.

O motorista estava inteiro e bem. Fora do veículo limitava-se a ficar olhando o povo saciar sua fome. Parecia complacente, parecia celebrar com tímida alegria algo que não se comemora: um acidente. Intimamente, talvez, se contentasse por ter, mesmo que acidentalmente, ajudado tanta gente. Em geral os motoristas não ofereciam resistência, parecia que todos, sem exceção, sentiam a empatia visceral que une os humanos.

Meus pais e outros famintos precisavam ser rápidos, pois a polícia rodoviária não tardaria chegar. Por isso muitos braços eficientes eram recrutados e por isso eu não ia, embora desejasse muito. Desejava porque no meu imaginário, meus pais e meu irmão selecionavam o que iam pegar. Até podia ter ali, no meio dos esparramos algum pote de goiabada, mas eles escolhiam só as coisas chatas. Eu queria ir porque se lá estivesse pegaria todos os potes de goiabada que pudesse.

Às margens da rodovia, eles se organizaram, pegaram o maior número de sacos de arroz que puderam e saíram rapidamente. A colheita estava realizada. Ao chegar em casa, minha mãe, com suor na testa e ternura nos lábios me disse: filho teremos arroz pra comer! Eu já tinha comido arroz antes e sabia que não era nada de mais, mas no jeito que ela disse a sua alegria transbordou, enchendo toda a casa de esperança e então, espontaneamente, rimos muito.

Ronei Costa Martins Silva

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