A VIDA QUE HÁ NA MORTE

Na vida evitamos muitos assuntos, como se fosse possível distanciá-los pelo simples fato de não tratá-los. Comigo nunca foi assim. Fico intrigado com aquilo que as pessoas insistem em não querer discutir e vasculho uma resposta que me aquiete. Nem sempre consigo, aliás, na maioria das vezes não consigo! É assim com a morte, esta senhora inevitável, personagem importante na maioria das religiões e protagonista de inúmeras produções literárias, audiovisuais e filosóficas, tudo visando satisfazer a ânsia de melhor compreendê-la.

 Como se sabe é mais fácil tratar deste assunto quando não se está diante da morte de alguém querido, afinal a elaboração do luto exige que vivamos o momento sem divagações impertinentes, como as que faço aqui. Então, sem a pretensão de ter a resposta certa, aventuro-me por este universo evitado, antes que seja tarde.

Para começar proponho a pergunta: Quem é você? Se a resposta for ancorada na aparência física, certamente quando morrer deixará de existir definitivamente. Agora, se a sua resposta basear-se nos valores e sentimentos que alicerçam a sua vida, tendo no corpo apenas o lugar no qual a essência se manifesta, e se ainda você for capaz de transmitir esta essência aos que te rodeiam, a morte será apenas o revelar da verdadeira essência. Com a morte a existência passará a acontecer de outro jeito: livre, sem forma, conforme os valores semeados quando a essência estava presa à um corpo. É a essência finalmente mudando de morada, eternizando-se em outros corações.

Figura emblemática é o próprio Cristo. A despeito dos dois milênios que nos separam de sua existência física (material), ainda buscamos nos orientar a partir de seus valores. Eis a prova cabal de que Ele mostrou ser possível vencer a morte, numa linguagem cristã, ressuscitar.

É claro que não é tão fácil assim, afinal, a nossa cultura ocidental introjeta conceitos que nos prendem à certa materialidade, deixando-nos incapazes de perceber coisas cuja compreensão exige certo desprendimento. Estamos muito ligados àquilo que se pode capturar pelos sentidos e distantes da energia essencial exalada por todos e cada um. Talvez por isso seja tão difícil discutir a morte.

Enfim, eis a contradição intrigante: a vida na morte. A noção de morte promove a vida na medida em que se deseja realizar coisas que possam transpirar as crenças para além morte, transcendendo o corpo frágil, ligando-nos ao passado e ao futuro, de modo que se possa repensar o que se foi e antecipar o que se deseja, ou seja, a civilização do amor.

Ronei Costa Martins Silva

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